terça-feira, 15 de novembro de 2011

A ÁRVORE DO AMOR...

A historização de uma história de AMOR...

 



Que pode uma criatura senão, 
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Carlos Drummond de Andrade

            Luiz Carlos Merten, crítico de cinema do jornal “O Estado de São Paulo”, afirmou que o longa-metragem “A árvore do amor”[1] (Under The Hawthorn Tree, China, 2010, 115min) é o Romeu e Julieta do diretor Zhang Yimou (Xian, 1951) – concordo em gênero, número e grau com ele – e, por esse motivo, “recebeu a etiqueta de ‘melodramático’ e (...) passou a ser desqualificado”. Em meu texto, ao invés de desqualificar o filme, irei qualificá-lo – o crítico referido não desqualifica o filme, porém, afirma que se trata de “um filme bonito, mas inócuo, talvez”. É evidente que há a história “melosa/melodramática” de amor entre Jing (Zhou Dongyu) e Sun (Shawn Dou). Contudo, para mim, essa história é linda, sensível, emotiva...., sem ser piegas. O título do filme em inglês é “Under the Hawthorn Tree”[2] (Sob o [Arbusto] Espinheiro) baseado no romance “Hawthorn Tree Forever” de Ai Mi.

A meu ver, o Romeu e Julieta chinês tem uma característica peculiar. Afirmo isso pensando que ao eclodir a paixão de Jing por Sun e de Sun por Jing predomina o CUIDAR de um pelo outro. Inicialmente, dele em relação a ela – por meio do carinho e respeito de sua parte (inclusive, a cena em que ele a toca pela primeira vez, em que sente o calor de sua mão, é de uma delicadeza indescritível; em que ele toca seus lábios nos dela é sensibilíssima e a cena que antecede o momento em que ambos dormem juntos é belíssima – não há o contato físico/sexual entre ambos, há apenas afeto, carinho, doação...) e por meio do fornecimento de alimentos e bens materiais a ela e a sua família. E, posteriormente, o cuidar dela em relação a ele – nos vários momentos em que ambos se encontram durante o filme e, especialmente, na cena final do longa-metragem em que ocorre uma espécie de despedida, um adeus entre eles...

Intitulei meu texto como “A historização de uma história de AMOR” porque é explícito no filme o momento/período político/histórico vivido por esses dois jovens apaixonados, ou seja, a Revolução Cultural da China (1966-1976). Jing é uma adolescente/moça/jovem que é enviada para o campo a fim de passar por um período de reeducação durante esse momento histórico chinês. De acordo com Merten “o conceito do regime é que intelectuais burgueses precisam desse contato com a terra – e os camponeses – para se livrar dos seus preconceitos, basicamente sua suposta superioridade”. Além dessa questão, um dos vários temas postos no filme é o seguinte: seu pai está preso – por haver sido considerado um opositor ao regime comunista chinês, um “direitista” – e sua mãe, de professora, foi “rebaixada” a faxineira, de modo que o futuro de sua família está nas mãos de Jing, porque, a partir de seu comportamento/engajamento em relação ao regime comunista, ela teria condições de manter financeiramente sua família e garantir uma vida menos “sofrível” a eles. Peso para alguém tão jovem? Quiçás sim... quiçás não... Já, Sun é o filho de um general do regime comunista e devido às diferenças culturais, sociais e financeiras, a história de amor entre os dois torna-se quase impensável/impossível, pelo menos, de uma perspectiva cartesiana...

Todavia, como quase sempre em nossas vidas, há algo que defino como o “acaso”[3], e este atravessa a vida de Jing/Sun fazendo com que se cruzem e um se apaixone pelo outro. Uma das questões lançadas aqui é que, possivelmente, ela não pudesse deixar seu “foco” de lado – o objetivo que sua mãe considera o mais adequado a ela –, ou melhor, sua doação incondicional ao regime comunista para viver uma história de amor. Não obstante, para a vida não há regras, não há manuais de instrução... apesar de ao trombar com sua mãe, quando estava sobre a bicicleta de seu grande amor, e esta descobrir que sua filha iniciara um relacionamento com esse rapaz. Os três – Jing, Sun e a mãe dela – decidem, então, conversar e estabelecer um acordo/“pacto” de que os dois enamorados ficariam um tempo sem se encontrar. Pacto que é rompido em alguns momentos por razões que escapam aos mecanismos de controle que tentamos, que tentam impor/criar a nossas vidas.

E a árvore, onde se encontra nessa história de amor/História da China? Mais uma vez, empregar-me-ei dos dizeres de Merten. Para ele: “a árvore é a própria representação do regime. Presta-se à mistificação oficial. Diz a lenda que a árvore, em vez de flores brancas, dará flores vermelhas adubadas com o sangue dos heróis da revolução de Mao”. Novamente, concordo com ele em gênero, número e grau... Porém, tentarei arriscar-me um pouco mais: ao pensarmos na imagem da árvore, associo-a a Adão e Eva que comeram o fruto proibido da árvore proibida, isto é, nessa situação mítica/fundadora provam/experimentam/experienciam o que não poderia ser provado/experimentado/experienciado. Provavelmente isto também se dê no filme de Zhang Yimou, porque os protagonistas seguiram/anelaram seguir caminhos outros, caminhos que não eram considerados os mais apropriados para suas vidas, segundo a família de Jing, segundo o regime político no qual ela estava inserida... Associo, ademais, a imagem da árvore a seus galhos, raízes, flores, frutos..., ou melhor, associo-a às várias veredas que poderemos percorrer em nossas vidas. Na realidade, o que pretendo dizer é que, para mim, não há certo e errado: há apenas possibilidades. Por esse motivo, a meu ver, ERRAR é apenas não ir pelo caminho esperado (frequentemente pelos outros), mas por um caminho diverso, diferente, outro... somente isso, nada mais.     

De minha perspectiva, esse filme é belo, singelo, sensível e impecável do ponto de vista das imagens propostas ao telespectador que sai emocionado/sensibilizado/tocado após assisti-lo. A história de amor se cruza/se confunde com a História da China e nesse ir e vir/vir e ir, ou seja, nos (des)vires dessas fronteiras (em meu texto anterior, acerca do filme “Meu País”, empreguei a metáfora/imagem da fita de Moebius, talvez aqui essa imagem também seja possível...), o filme se constrói e nos faz sonhar, sorrir, chorar, enfim, emocionarmo-nos... afinal de contas, essa é uma das tantas funções que a Sétima Arte nos proporciona. Em outros dizeres: experiências humanas, humanitárias, humanistas... HISTÓRIAS DE GENTE, apesar de estarmos “do outro lado do mundo”. Mas, importante dizer que ao olharmos para o OUTRO, também olhamos para NÓS mesmos. E como olhamos...

Texto escrito por Marcos Peter Pinheiro Eça em novembro de 2011.

http://youtu.be/q_mpm4GMI_g

http://youtu.be/RtwVGmVCnF0

Abraço afetuoso a todos e excelente feriado chuvoso,
Marcos.


[1] “Lindo, mas um tanto obsoleto” publicado em o jornal “O Estado de São Paulo”, sexta-feira, 4 de novembro de 2011, Caderno 2, D5.  Em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,lindo-mas-um-tanto-obsoleto,794434,0.htm.
[2] Título original do filme “Shan Zha Shu Zhi Lian”. Se alguém souber chinês e puder dizer-me/explicar-me o que exatamente está escrito, ficarei imensamente grato.
[3] Ao mencionar o tema do acaso lembro-me do diretor polonês Krzysztof Kieślowski (1941-1996) que aborda esse tema, e muitos outros, em um longa-metragem cujo título é exatamente “Acaso” (1987), como também em seus outros filmes.

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