Maurizio Cattelan é um artista italiano, nascido em Pádua, Itália, em 1960. Ele é provavelmente mais conhecido por suas satíricas e controversas esculturas, particularmente La Nona Ora (A Nona Hora), representando o Papa João Paulo II atingido por um meteorito.
Autodidata Cattelan não frequentou escola de arte. Ele começou sua carreira em Forlì (Itália) fazendo móveis de madeira na década de oitenta, onde veio a conhecer alguns designers como Ettore Sottsass. Ele fez um catálogo de sua obra que ele enviou para galerias. Esta promoção deu-lhe uma abertura em termos de design e arte contemporânea. Ele criou uma escultura de um avestruz com a cabeça enterrada no solo, usou um traje com uma cabeça gigante de Picasso, e fixou, com fita, um galerista de Milão em uma parede. Durante este período, ele também criou a Fundação Oblomov.
Mais recentemente, Cattelan assumiu o papel do curador. Ele reside no East Village de Nova Iorque, mas mantém raiz em Milão. Ele criou uma revista chamada "Permanent Food"que inclui imagens roubadas de outras revistas.
João Artacho começou a trabalhar na década de 1930 e sua produção se aprofundou nas décadas de 40 e 50. Apesar de não ser arquiteto, Artacho Jurado idealizava os prédios e pedia para algum arquiteto assinar as plantas. Artacho não frequentou escolas pois seu pai, que era anarquista, se recusava a deixar seu filho jurar a bandeira, cerimônia obrigatória nas escolas da época.
Sua arquitetura reflete os sonhos hollywoodianos do pós-guerra em uma mistura de estilos e linguagens: o moderno, o nouveau, o déco e o clássico. Visando a classe média-alta e alta, seus edifícios eram projetados com uma série de serviços e opções de lazer: piscina, terraço com bar na cobertura, onde eram promovidas as festas de inauguração.
Constantemente fiscalizado pelo CREA, nas placas de suas obras seu nome não podia figurar em tamanho maior do que o nome do engenheiro responsável. No entanto, Artacho Jurado dificilmente obedecia à imposição, aumentando a ira de alguns arquitetos, que consideravam ultrajante sua atuação profissional, visto que ele não era arquiteto formado.
O reconhecimento de suas obras foi tardio, uma vez que nunca lhe foi permitido assiná-las."
Ai... Drummond...
Saudades de meu mestre Drummond...
Nostálgico? Moi?
Quiçás com saudades de seres pensantes e sensíveis...
A incapacidade de ser verdadeiro - Carlos Drummond de Andrade
Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa, como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Colo. Este menino é mesmo um caso de poesia.
ANDRADE, Carlos Drummond de. A incapacidade de ser verdadeiro. Em: Poesia e prosa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1988.
Abraço incapaz de ser verdadeiro, ou melhor, poético a todos,
Leitor de Marcel Mauss, escritor aplicou seu método para descrever casal que sonha ser rico em seu livro
14 de janeiro de 2012
SÉRGIO MEDEIROS
O francês Georges Perec (1936-1982) tinha grande interesse em classificações. Era inevitável, portanto, que um belo dia se pusesse a classificar seus próprios livros, dividindo-os em diferentes categorias, sob a forma de exercício crítico escrupuloso, pelo menos na aparência. No volume póstumo Penser/ Classer (1985), o autor afirma que nunca escreveu dois livros iguais, pois não apreciava repetir uma fórmula, um sistema ou um procedimento já utilizado num livro anterior. Era, em suma, um autor sistematicamente versátil, que produziu textos tão diferentes entre si quanto La Disparition (ainda inédito em português) e A Vida - Modo de Usar (já publicado no Brasil pela Companhia das Letras), para citar dois dos mais importantes romances do autor, que mereceu em vida a reputação de ser um tipo de computador ou de máquina de produzir textos, conforme ele mesmo lembra em Notes sur ce que je cherche.
Numa leitura retrospectiva, Perec descobriu que essa produção tão variada (durante uma carreira curta publicou muitos títulos, alguns poucos já traduzidos para o português) podia ser agrupada em quatro campos diferentes, ou quatro modos de interrogação, como ele sugere: o sociológico, o autobiográfico, o lúdico e, finalmente, o romanesco, termo que traduz seu gosto por histórias e peripécias. O romance de estreia do autor, As Coisas, que sai agora em português numa tradução de Rosa Freire d'Aguiar, se encaixaria, segundo Perec, na primeira categoria, a de interrogação sociológica, embora, evidentemente, também tenha algo de biográfico, lúdico e romanesco. Leitor de Marcel Mauss, autor que lhe abriu os olhos para os "fatos banais" capazes de "descrever" o que somos, Perec buscou, em seus livros "sociológicos", sobretudo no de estreia, agraciado com o prêmio Renaudot, responder à seguinte indagação: como olhar o cotidiano?
Conforme revela o subtítulo de As Coisas - Uma História dos Anos Sessenta -, o leitor entrará em contato, nesse breve romance publicado por Perec aos 29 anos de idade, com o horizonte de desejos (para usar uma expressão sua) de um jovem casal de 1960, que não era rico, mas desejava sê-lo, Jérôme e Sylvie, ambos "psicossociólogos" que ganhavam a vida entrevistando pessoas sobre assuntos variados, numa época de expansão das análises motivacionais na França. Narrado em terceira pessoa, o romance não é, no entanto, a narração onisciente padrão, pois suprime radicalmente o diálogo, a reprodução direta da voz dos personagens. Ao expor ao leitor a imensidão dos desejos do casal (que é o de possuir o que veem na revista L'Express, por exemplo, que "lhes oferecia todos os signos do conforto"), Perec aposta na descrição escrupulosa, cinematográfica, objetiva. Essa meticulosidade descritiva dá o tom do relato, desde o início, um relato que exclui, curiosamente, a intensidade erótica, o desejo sexual: "A primeira porta abriria para um quarto, de piso revestido por um carpete claro..."
O narrador vasculha desejos ("O mundo, as coisas deveriam desde sempre lhes pertencer, e eles teriam multiplicado os sinais de possessão") e relações sociais ("Quase todos vinham da pequena burguesia, e seus valores, pensavam, não lhes bastava mais: olhavam com inveja, com desespero, para o conforto evidente, o luxo, a perfeição dos grandes burgueses"), adentrando num mundo nada ideal que "começava a desabar sob o amontoado dos objetos", daí a importância dos catálogos, das enumerações, de que se alimenta o estilo descritivo do jovem Perec. O pequeno mundo familiar do início dos anos 60, visto da perspectiva dos protagonistas, vai ganhando, página após página, novas nuanças, então o leitor descobre, nas corriqueiras "pesquisas de opinião", algo improvisadas e amadoras, perguntas de outra ordem sobre o regime do general De Gaulle, a Guerra da Argélia, os anos que vão de 1959 a 1962... Os protagonistas, porém, logo dão as costas ao engajamento político e continuam aplicando sem interrupção os costumeiros questionários de estudos motivacionais.
Os personagens pequeno-burgueses de As Coisas pertencem todos, como Jérôme e Sylvie, aos meios da publicidade e são cinéfilos. Consideram, e com razão, segundo o narrador, o filme O Ano Passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, "uma merda". No entanto, facilmente se verifica (é uma das grandes ironias do romance) que a mansão barroca desse filme está lá, escondida ou deformada, no pequeno apartamento parisiense dos protagonistas, e que os planos em movimento por corredores, usados por Resnais na sua obra-prima, menos a decoração magnífica, também abrem o delicioso romance de estreia de Perec: "O olhar, primeiro, deslizaria sobre o carpete cinza de um corredor comprido, alto e estreito..."
Pequeno-burgueses, Jérôme e Sylvie são cinéfilos e vivem atolados no mundo da propaganda
* É ENSAÍSTA, TRADUTOR, POETA. PUBLICOU, ENTRE OUTROS LIVROS FIGURANTES (ILUMINURAS, 2011). ENSINA LITERATURA, É EDITOR NA UFSC.